terça-feira, 2 de junho de 2015

Not That Kind Of Girl - a crítica

I'm the kind of person who should probably date older guys, but I can't deal with their balls.
Lena Dunham, em Not That Kind of Girl 

@instagram/dianamariarebelo

Not That Kind of Girl valeu-me uma das entradas mais engraçadas que acho já ter escrito, porventura, por tê-la redigido com a mesma leveza e o mesmo humor com que Lena Dunham aos 28 anos nos fala. É "aquela miúda que não tem medo do ridículo", e na série de televisão que produz e representa desde 2012, Girls, esse facto é mais do que comprovado. 

Quando a série estreou pela HBO, quase uma década depois de Sex and the City, as comparações foram imediatas. Hannah, a personagem interpretada por Lena, seria a "nova" Carrie, contudo, as diferenças eram notórias. Enquanto Carrie representava uma geração de mulheres independentes que transportavam os seus 30 e tal anos para a casa dos 20 com imenso estilo, óptimos empregos, casas próprias e homens de fato e gravata sempre dispostos a pagar mais uma bebida, Hannah é o epíteto dos 20 actuais. Representa uma classe designada "pré-adulto". Licenciada, não tem emprego, transborda potencial e perde-se em ideias e sonhos. Os pais são, necessariamente, o seu pilar até que a empurram para fora do ninho com as fracas asas a bater e a arte do "desenrascanço" domina. Os rapazes não são tão interessantes, charmosos ou entendidos nas artes do sexo mas, numa coisa as duas séries convergem: acabam sempre por ser a fonte ideal de drama. 

Sex and the City e a sua Carrie são ficção; Girls e a sua Hannah são a realidade, a de Lena Dunham, pelo menos. Quem percorre os episódios de Girls questiona-se sobre qual a inspiração para certas peripécias das personagens. As respostas estão todas em Not That Kind of Girls. Com a mesma simplicidade, o mesmo humor negro e a sinceridade quase chocante de Lena, Not That Kind of Girl é um livro de memórias que se lê desenfreadamente. Separado em capítulos, a autora conta-nos os problemas que tem com o seu corpo outrora esbelto, como a entrada no mercado de trabalho quase se confunde com outro tipo de "mercado" para os senhores da indústria, os seus amores e, claro, desamores, com a mesma facilidade com que relata episódios mais negros da sua vida, como a noite em que foi violada ou o seu inquietante medo da morte. 

Discursa-se sobre testículos da mesma forma que se fala sobre vaginas e em cima da mesa estão outros assuntos. Seja qual for a área, o tratamento lírico é indiferente. À semelhança de Hannah, que na série aparece várias vezes nua mesmo com os quilos a mais e os seios de "adolescente", Lena expõe os seus pensamentos de forma franca e sem rodeios, porque todos os assuntos merecem ser debatidos sem pudor ou vergonha. O ridículo não existe ou, pelo menos, é uma questão de perspectiva. Woody Allen delicia-nos, há décadas, com personagens auto-biográficas carregadas de paranóia, ansiedade, questionamento ou inquietação, nos seus filmes. Aprendemos a gostar dele por ter a capacidade de gozar consigo próprio. Lena faz exactamente o mesmo apenas de forma mais crua. Talvez por ter nascido noutra geração, numa Nova Iorque distinta, ou numa casa cuja educação assim o ditou - afinal, o pai é conhecido pelas suas pinturas sexualmente explícitas e a mãe fotografou-se nua quando era nova. 

Mas o livro não é só conversa. Não é só o compilar de um monte de estórias e de experiências mirabolantes e surreais é, também, o que veio com elas e como se reflectem agora em si. Dá conselhos e lições inspiradas na sua vida, acrescenta as experiências dos que "melhor sabem", os pais, em dois capítulos dedicados a coisas que aprendeu consigo e outras que aprendeu com outras pessoas, como a Taylor Swift - a quem agradece inclusivamente no final da obra. Há apenas um assunto que permanece no segredo dos deuses: o actual namorado. Not That Kind of Girl é a biografia de uma curta vida ainda que repleta de aventuras e lições, é o encerrar de um capítulo na história de Lena Dunham, mas permanece a questão: o que acontecerá a Lena, e a Hannah, depois isto?