terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Stories We Tell

Algumas histórias são tão marcantes que merecem ser contadas não somente em família, mas para uma verdadeira plateia. Todas as pessoas têm os seus segredos, consequentemente, todas as famílias os terão também. Stories We Tell desvenda o segredo de uma dessas pessoas, no seio da sua família, e as consequências que teve naqueles que tocou. Alguns segredos, ainda que bem escondidos, marcam várias vidas, atravessam gerações e culminam, como neste caso, numa história fantástica transportada para um documentário. 
Sarah Polley teve o infortúnio ou, muito pelo contrário, a sorte, de fazer parte de uma dessas famílias onde algo de surreal acontece. Mas, fazendo parte de uma família de criativos, actores, escritores, Sarah não conseguiu ver as coisas apenas segundo um prisma. Necessitou de ouvir todas as partes, todos os intervenientes, todas as versões e de construir a sua própria história. Porque é isso que Polley faz em Stories We Tell. Arma-se em detective e procura descobrir o que afinal se passou, como se passou, segundo cada interveniente.
O fantástico acerca deste documentário é, em primeiro lugar, a forma aberta como esta família aborda a sua história, ainda que seja dolorosa e levante várias vezes o véu sobre a mãe, já falecida, e cuja vida era afinal um verdadeiro segredo. É com uma enorme ligeireza que todos falam e comentam os anos de vida dessa mãe mistério e as consequências dos seus actos nas suas actuais vidas. 
Mas isto, só por si, não chegaria para despertar o interesse de quem vê, por isso, Polley coloca o pai a narrar a história, a sua história. Faz entrevistas em três níveis: os que viveram, efectivamente, aquele segredo; os que viram de perto e foram afectados por ele; e os que apenas o observaram de longe, num diz-que-disse. E liga tudo isto com velhas imagens filmadas em Super 8, que mostram vários momento de vivência da falecida mãe. A cereja no topo do bolo, como é hábito dizer-se. 
Sarah Polley poderia ter julgado a sua história, a história da sua família, uma verdadeira tragédia. Em vez de o fazer, julgou-a digna de ser contada e foi mais longe: considerou-a digna de ser reproduzida como o resultado de um processo artístico, como uma obra de arte, para o grande ecrã. Existem sempre, pelo menos, duas opções. Neste caso, pode-se afirmar que Sarah optou mais que bem. 

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