segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Gravidade

Sufocante. Doentio. Desconcertante. Gravidade tem a capacidade de nos deixar enjoados ao fim de dez minutos de filme. Tudo graças à tecnologia IMAX e à realização de Alfonso Cuarón. Este thriller espacial não tem uma história particularmente nova ou irreverente. Acompanha dois astronautas que, após um acidente inesperado, se vêem à deriva pelo espaço. Matt (George Clooney) e Ryan (Sandra Bullock) lutam, então, contra todas as adversidades numa demanda pela sobrevivência. Simples, ou assim o parece. Afinal, será possível sair-se vivo de uma experiência destas no espaço? Sem gravidade, sem comunicações com a Terra, com pouco oxigénio e a uma velocidade, ora alucinante, ora quase inexistente, Ryan e Matt transportam-nos para outra dimensão.

O que torna Gravidade especial não é o argumento em si, mas a forma como o conceito foi explorado. Pouco nos importa se os dados científicos estão correctos ou errados. Se aquela aventura, na realidade, teria tal desfecho ou não. O foco está nos sentidos. A respiração é ofegante. O movimento da câmara claustrofóbico. Observar a Terra a partir do espaço é delicioso, em oposição ao vasto campo negro que é o espaço. Não que o argumento não nos forneça nada, porque fornece. Os diálogos são introspectivos. Os monólogos de Ryan são repletos de medo. Mas, na verdade, são apenas meros complementos.

Visualmente, Gravidade é um daqueles filmes que ganha com a evolução tecnológica. Em IMAX somos transportados para a película. Sentimos-nos lá. O suspense é constante. A adrenalina das personagens também. Sem este, porventura, Gravidade torna-se bastante mais banal, sendo apenas mais uma aventura pelo espaço que corre mal. Há que viver toda a experiência ou muitos dos elementos do filme serão perdidos. 


O realizador consegue, ainda, fazer uma analogia ao "bebé estrela" de Stanley Kubrick. Em 2001: Odisseia no Espaço, Kubrick apresenta-nos um feto astral que simboliza o renascimento, ou uma nova fase de evolução para o Homem. Aqui essa ideia é assumida pela personagem de Bullock que em dado momento se coloca numa posição fetal, incidindo sobre si uma luz, como em 2001

Curiosamente, Sandra Bullock acaba por ser um dos elementos mais fracos da película. O seu empenho é questionável já que em dados momentos a respiração e o seu discurso parecem mais ensaiados do que sentidos. Por sua vez, Clooney é igual a si próprio. Divertido e descontraído. É o lado fresco e leve de Gravidade. Mesmo assim, conseguem ambos tirar-nos o fôlego. 

Gravidade não é 2001: Odisseia no Espaço. Nem o pretendia ser. Embora ambos permaneçam, provavelmente, para a história como odisseias visuais, 2001 tinha uma mensagem mais forte. Gravidade, por sua vez, tem um argumento bem mais fraco, mas um impacto nos sentidos mais forte. Comparações à parte, esta aventura espacial prometia-nos 90 minutos sufocantes e consegue dar-nos mais do que isso. É uma experiência visual extraordinária e, de igual modo, assustadora. Leva-nos ao espaço e não queremos regressar.


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