quarta-feira, 17 de julho de 2013

Somewhere

Somewhere, de Sofia Coppola, parece tão perdido como o seu próprio nome; encontra-se algures entre um mau filme e aquele que poderia ter sido um bom filme. 
O enredo, que é simples, retrata-nos um actor de Hollywood que após conviver mais seriamente com a sua filha entende que, provavelmente, durante muito tempo encheu o seu vazio com absolutamente nada. 
Todo o filme poderia ter sido um enorme cliché, mas foi realizado pela Sofia que consegue fugir da norma. Como? Ao retratar-nos uma Hollywood melancólica. 
Rui Pedro Tendinha escreve na Vogue deste mês que, em Somewhere, "Sofia filmava o vazio de uma cidade" e usa expressões como "decadência" ou"circo triste de Hollywood" para descrever o filme. Considera o enredo "tão LA". E é. É Los Angeles dos "pés à cabeça". Mas é uma LA bastante diferente do que estamos habituados. Quer dizer, Hollywood é, geralmente, sinónimo de diversão, cor, brilho, luxo, álcool e muita droga. E, embora tudo isto esteja presente no filme de Sofia, ele não se compara a um show de Kardashians
Sofia mostra-nos a cidade de uma forma panorâmica, com uma rodagem distante e em movimento - estradas, existem muitas cenas de estradas -, mas mesmo assim, o ritmo é lento, pausado e profundo. Como se o movimento e a pausa, a distância e a profundidade funcionassem não de forma antagónica mas para nos unir à personagem. Numa dada cena (não quero fazer spoiler), Sofia inspira-se em 2001: Odisseia no Espaço, de Kubrick, e centra-se na respiração pausada e, ao mesmo tempo, ofegante do personagem principal para nos transpor os seus sentimentos. 
Mais uma vez, a realizadora apostou numa banda sonora clássica da Sofia. Penso que já podemos falar assim, dado que em todo o filme parece tocar uma playlist de Coppola, com Foo Fighters, Phoenix, Gwen Stefani ou The Strokes. 
Quanto às prestações, Stephen Dorff, como Johnny Marco, parece fazer dele próprio ou então é mesmo bom actor. Acho que é uma junção de ambos os factores. Tem um perfil que funciona: tem ar de estrela, mas ao mesmo tempo emana um je ne sais quoi de decadente, de deprimente. Em oposição, claro, à sua filha Cleo, interpretada por Elle Fanning que parece um foco de luz em todo o filme de tão adorável que é. 
Somewhere é, na minha opinião, o pior filme de Sofia Coppola. Um devaneio que se tornou real, mas mesmo assim consegue ser uma película agradável. Sofia, de uma forma ou de outra, consegue encher-nos o peito e deixar-nos satisfeitos, mesmo que não seja muito. 

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